Cais da Mornidão
Da saudade à indiferença
Há 5 anos, de um dia para o outro, nos vimos sem a possibilidade de congregar, tivemos que cancelar todos os eventos que envolviam aglomerações de pessoas, e qual evento da Igreja não envolve aglomeração? Aniversários, congressos, conferências, seminários, simpósios, convenções, tudo, absolutamente tudo foi cancelado, e sem previsão de retorno. Diante disso, não havia outra opção senão recorrer à virtualidade das redes sociais, um meio eficiente, rápido e barato. Desse modo o fenômeno das Lives explodiu, de forma que chegou até causar sobrecarga nas plataformas em alguns momentos.
A verdade é que nem a Internet estava preparada para isso, todos tiveram que se redesenhar para esse momento tão inusitado. Uma enxurrada de lives surgiu em todos os horários, lives simultâneas. A igreja invadiu e sobrecarregou as redes sociais através das transmissões de seus cultos ao vivo. Lives de cultos em casa até de quem tinha vergonha de se apresentar na Igreja. De repente todos estavam "Laivando". Enfim, esse foi o único meio de ‘congregar’ a Igreja até que tudo voltasse à normalidade.
Durante a pandemia que durou dois anos, muitas pessoas perguntavam se podiam frequentar a igreja, alegavam saudades dos cultos, etc. Às vezes era possível, outras não. Uns achavam que não iriam suportar o fato de não poder estar fisicamente no templo físico. A santa ceia era ministrada em vários horários distintos pra que todos fossem atendidos. Os cultos transmitidos por meio das redes sociais com a presença de poucos seguindo regras de distanciamento e higiene rigorosa. Pregava-se e cantava-se de máscara. Era uma coisa horrorosa.
Pois é, tudo voltou ao normal há três anos já. E ainda há quem não tenha percebido. Há quem não voltou a interagir, há quem mantem o distanciamento e não se aproxima de ninguém, não compõe nenhum grupo da igreja, não assume nenhuma responsabilidade, seleciona o culto à frequentar, não confraterniza. Chega na igreja com o culto já começado, e sai pouco antes do término para não precisar interagir com ninguém.
Durante a crise, muitos clamavam por voltar. Agora que podem, não querem. Isso revela que a "saudade" não era fome de Deus, mas apenas o desconforto de perder um hábito. A saudade da igreja acabou, a alegria de congregar cessou, o prazer da convivência se esvaiu. Não sabemos se se trata de membro ou prótese, se é oficial ou simpatizante, se é piedoso ou religioso, se está acordado ou dormindo. Um membro tem sangue, tem vida, sente a dor do corpo. Uma prótese está lá, ocupa espaço, mas não tem vida.
Restam muitas dúvidas, menos uma, e foi a pandemia que a revelou, derrubou máscaras, desnudou caráter, e mostrou que o ser humano não dá valor ao que possui, deseja o que não possui, e esnoba o que é de graça. No entanto, engana-se quem pensa que acabou, pois a Bíblia prediz muitos períodos sombrios ainda.
Obviamente que, quem serve a Deus com sinceridade, e tem prazer de estar em comunhão com o corpo de Cristo, não se preocupa com isso, independente se os tempos forem sombrios ou de bonanças para esse crente é indiferente, pois seu alvo é Cristo. Porém, deveriam se preocupar aqueles que ainda não desembarcaram do navio da indiferença, e continuam atracados no cais da mornidão espiritual, inertes, letárgicos, fracos, doentes, e muitos que dormem.
A pandemia foi apenas um ensaio. Foi um teste de fogo brando. E se muitos falharam num teste de 'ficar em casa', como suportarão quando o teste for a perseguição aberta? Como suportarão quando não for um vírus que fecha as portas, mas o decreto do Anticristo?
A peneira de Deus passou, e revelou muito joio. Mas a colheita final se aproxima. O tempo de brincar de igreja acabou. Se a pandemia nos ensinou algo, foi isto: a nossa fé não pode depender de templos abertos, de ar-condicionado ou de abraços fáceis. Ela tem que estar enraizada na Rocha, que é Cristo."
Hb 10:25: "Não deixemos de congregar, como é costume de alguns (costume que a pandemia piorou!), mas admoestemo-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia."
O "novo normal" não pode ser a frieza espiritual.
Pr Odair Filho